Nunca fomos mais do que destroços de um acidente do acaso. Talvez eu tenha sonhado em excesso, como quando construía os efêmeros castelos que as ondas vinham beijar. Se princesa eu fosse, te abrigaria no meu reino. Como não sou, continuas em terras de ninguém. Sem tratados. Desabrocho a chorar sob a noite, sobre o copo que pela metade vai me completando. E eu ainda desabo sob os tetos sempre que fico sem chão.

Esses dias uma criança me deixou constrangida ao perguntar quantos anos eu tinha, respondi cheia de dedos que tinha vinte e um. E então ela curiosamente me atacou: você já é adulta? Ri e desconversei. A resposta estava na minha atitude, eu poderia ter sido sincera, como uma criança, mas não fui. Se fosse, diria sem o menor cuidado que abrir as asas ainda é uma tarefa muito difícil para mim. Mas, como todo bom adulto, passei por cima do assunto porque tinha mais o que fazer ao invés de ficar intimidada com uma criança enxerida. Naquele momento eu escolhi diante do miúdo. Quanto menor o ser, maior a alma. Parece que a gente vai deixando o que temos de mais sincero pra trás. No fundo, o que os adultos precisam de verdade é desaprender.

Esses dias uma criança me deixou constrangida ao perguntar quantos anos eu tinha, respondi cheia de dedos que tinha vinte e um. E então ela curiosamente me atacou: você já é adulta? Ri e desconversei. A resposta estava na minha atitude, eu poderia ter sido sincera, como uma criança, mas não fui. Se fosse, diria sem o menor cuidado que abrir as asas ainda é uma tarefa muito difícil para mim. Mas, como todo bom adulto, passei por cima do assunto porque tinha mais o que fazer ao invés de ficar intimidada com uma criança enxerida. Naquele momento eu escolhi diante do miúdo. Quanto menor o ser, maior a alma. Parece que a gente vai deixando o que temos de mais sincero pra trás. No fundo, o que os adultos precisam de verdade é desaprender.

Nós só queremos ser amados! A carência é um câncer instalado nas nossas nucas e isso não tem nada a ver com o signo. Qualquer profissional troca seu tempo por dinheiro, um escritor troca-o por afeto. Falo por mim, escrevo para esbarrar na solidão dos outros. Não, não acho que estou sendo exigente. O tempo da poesia é agora, me ame enquanto te escrevo. Precisamos de alguém que passe a mão nas nossas cabeças e diga: continue rasgando sua alma, está tudo bem. Ou pelo menos diga: adorei a parte em que a personagem se joga no penhasco dos prazeres. Escrever é um ato na linha tênue entre a coragem e a covardia. Muitas vezes escrevemos o que ninguém diz e justamente para não dizer, escrevemos. Nós vivemos duas vezes, uma delas em um mundo oco com ar de inteiro mais conhecido como umbigo. Ao cairmos nesse vale escuro, nos sentimos mais inúteis que filipetas de compra e venda de ouro. Nós somos uns bobos que só precisam de migalhas de afeto. O palhaço e o poeta tem o mesmo desejo: fazer nascer a flor no concreto. Por via das dúvidas, comprei um urso de pelúcia desses que dizem “I love you!” para apertar toda vez que você não puder me ler.

many-pseudonymous
Minha vida mudou muito nos últimos anos. Eu mudei muito nos últimos anos. Mudei sem oferecer a menor resistência. Mudei sem me surpreender com as mudanças. Elas simplesmente apareceram, aconteceram, me invadiram e se instalaram. Então, eu finalmente me senti em casa dentro de mim mesma. E hoje, mais do que nunca, sinto que não devo nada para ninguém. A gente demora demais para se livrar de pesos e culpas. Mas um dia, finalmente, a gente acorda. E descobre que tem uma vida inteirinha pela frente.
Clarissa Corrêa. (via cerejeiro)